sábado, 4 de março de 2017

Quase a mesma coisa - traduzindo os eventos daqueles dias...

Por que você escreveu isto? - perguntaram-me. E esta foi a pergunta mais ouvida por mim naqueles dias. A pressão foi enorme. Diria mesmo que foi um imenso rolo compressor passado por cima de mim. Imaginaria eu que estaria colocando minha mão num vespeiro? Quem poderia supor que eu estava prestes a me ver no olho do furacão, num jogo de intrigas entre gregos e troianos! O que faria, então?

Terminei por fazer aquilo que eu faço de melhor: mantive a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo... Quando dei por mim, até o jornalista do SBT havia me ligado em casa. “Fábio, é o jornalista do SBT perguntando se você daria uma entrevista explicando a sua versão dos fatos. Ele quer saber se você pode falar com ele... você vai?”, disse-me assustada a Lu. Gelei! Aquela ligação deu-me a exata noção da extensão do problema que acontecera diante do que eu havia escrito.

“Mas você escreveu alguma mentira? Você inventou tudo aquilo?”, perguntaram-me. “Claro que não!” Expliquei-me: “Eu estava dando voz a um outro. Alguém pensava aquilo e eu queria fazer ressoar o que aquele alguém pensava para que pudéssemos entender o que se passava na cabeça dele e na de tantos outros. Só isso!”, insistia. Entretanto, tudo foi em vão. Queriam era a minha cabeça e, pelo visto, queriam que eu mesmo a entregasse numa bandeja de prata para não sujarem as próprias mãos.

Contando assim, até parece que fiquei isolado. Muitos que haviam me acompanhado, apoiaram-me naqueles dias negros e disseram que, se preciso fosse, escreveriam em meu favor. Porém, da maneira que tudo estava sendo montado, se eu permitisse que eles fizessem algo assim em minha defesa, todos cairíamos. E eu não queria levar ninguém comigo. 

O que mais me surpreendia no desenrolar dos eventos é que eram os da minha própria "casa" que se levantavam contra mim. Eram aqueles que, outrora, eu os defendera, advogara suas ideias e a quem eu havia entregue minha vida por aquela causa...

Atacaram-me, por quê? Porque quis abrir um diálogo entre opostos, dar oportunidade para que entendêssemos problemas que estavam sendo expostos e que precisavam ganhar uma nova perspectiva para discussão. E, inesperadamente, abriu-se na minha direção a boca escancarada do totalitarismo: uma besta-fera que não discute ideias e nem se importa com argumentos, apenas acua os mais fracos e devora-lhes o fígado.

Foi isso o que fizeram comigo. Levaram-me aos tribunais e tive que chorar diante deles, derramar minhas lágrimas de sangue para que outros não fossem atacados junto comigo. Protegi amigos e padeci em silêncio, assumindo a responsabilidade por tudo o que eu havia escrito. Assinei papéis, ouvi ofensas e palavras de incompreensão. Em determinado momento, meu algoz, no tribunal daquele circo, disse-me: “O que eles querem é apenas que eu te ferre. Lá em cima, eles me disseram: dá um susto nele, esmaga o rapaz para que ele nunca mais se atreva a dizer de novo o que pensa e nem que fique dando voz para índio”!

Foi mais de um mês de idas e vindas ao tribunal, explicando-me, ouvindo inverdades, sendo coagido e sendo assustado, até, finalmente, ver-me vencido pelo esgotamento de minhas forças. “Mas por que você escreveu sobre isso?”, insistiam. “Eu estava numa caminhonete. Foi ali que eu o conheci e foi ele, naquela viagem de mais de três horas, quem me contou tudo. Aquele indígena foi me contando sobre a aliança entre o meu partido e os fazendeiros da Região e como isso estava prejudicando suas terras. E, assim, eu escrevi tudo o que ele havia me contado...”, expliquei. Na época, pareceu absurdo, mas, depois, tudo veio à tona: o Governador do Estado, o maior latifundiário do país, realmente era aliançado com o Presidente da República!

Mas quem eu era? Só um professorzinho de escola pública... E o partido ao qual eu pertencia, denunciado por mim, virou suas presas e garras em minha direção e eles não descansariam enquanto não me desacreditassem diante de todos...

Hoje (29/11/12), toda essa história ocorrida há mais de cinco anos (refiro-me à conversa com o indígena), retornou-me à memória, porque eu achei dentro de um livro guardado aqui em casa o “mandato de notificação” que me deram naquela época e que iniciou todo meu suplício naquele inferno. Nunca mais pegara esse livro para ler e, hoje, logo hoje, resolvi retirá-lo da prateleira para o reler. Para minha surpresa, lá estava, logo na primeira página, aquela folha dobrada ao meio e assinada pelos meus algozes da época. Vê-la, depois de tanto tempo, trouxe à tona toda esta história que agora conto. O nome do livro em que encontrei a folha? “Quase a mesma coisa”, do Umberto Eco. Um livro apaixonante sobre tradução...

Publicado originalmente em 30 de novembro de 2012.

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