sexta-feira, 14 de abril de 2017

A Semana Santa e os 500 anos de Reforma Protestante


Não haverá ressurreição enquanto não houver antes uma séria compreensão da vida, paixão e sacrifício do Senhor Jesus

Eu não tenho problema com religião. Todavia, sei que há quem tenha. Por isso, vejo as pessoas caindo numa miríade de definições do que, afinal, significa a palavra “religião” para ver se encaixa ou se descarta de vez.

Nestes 22 anos de meu Protestantismo, vi duas posições extremas no meio evangélico. Desde a descabida sentença “Jesus odeia a religião” até a vida religiosamente chata, vazia e estéril de gente que se enche de rituais, ou se esvazia completamente deles, para reviver ou manter (ou justificar, sei lá) a experiência com o sagrado. E no meio destes dois extremos se abre um vasto leque que vai desde os desigrejados até os neoanimistas com seus atos simbólicos. Entra de tudo.

O que me motiva a escrever este texto é, na verdade, estes dias de Semana Santa, que de “santa” não tem nada há muito tempo. É aquele ponto em que a nossa religiosidade se perde em algum lugar entre o politicamente correto, o laicismo estatal e aquela velha ladainha argumentativa de que “toda semana é santa”. Não querer “impor” um feriado religioso a outros grupos minoritários não-cristãos, não querer que o Estado coopte com nenhuma religião e o simples aborto de todo e qualquer tipo de ritual estão nos porquês de nossa comunidade secularizada.

Digo tudo isso pois, para muitos e para muitas igrejas ditas evangélicas, o “feriadão” da Semana Santa tornou-se apenas um grande final de semana prolongado, que começa na sexta e vai até o domingo. Há muitos anos, desde a minha conversão, que a rejeição de tantos irmãos a toda e qualquer reflexão religiosa nesses dias me assusta. Do meu lado, como dei aula todos estes dias, pude, desde segunda-feira, caminhar com meus alunos, a cada dia, lendo os textos da última semana de Jesus e meditar em cada um dos eventos. Chamei a atenção para isso aqui em casa também: “Sabe o que aconteceu nesta terça (quarta, quinta...) há quase dois mil anos?”, perguntei todos os dias desta semana às minhas filhas.

Alegra-me que haja igrejas evangélicas que, ao menos na sexta-feira, façam o culto com o tema das "sete últimas palavras de Jesus na cruz”. Todo mundo junto! A comunidade da fé! A família, a Igreja, a Noiva de Jesus meditando como corpo e rememorando o ato de amor inenarrável do seu Amado por ela. 

Vou confessar algo sério a vocês. Assusto-me com o esvaziamento radical de religiosidade nos nossos cultos. E não, não estou falando de velas e de latim, por favor. Estou me referindo, por exemplo, ao desconhecido das nossas novas gerações: o ano litúrgico. Alguém ainda sabe o que é o “ano litúrgico”? Vou dizer então: é o tempo de Deus invadindo o nosso tempo, é o extraordinário bulindo (fazendo bullying mesmo) com o nosso maçante ordinário. Porém, tudo isso acabou em muitas Igrejas. 

O ano litúrgico era uma didática de ensino-aprendizagem circular em meio a um povo que diz aprender só de forma linear. Mentira, pois! Somos todos circulares, por isso gostamos dos memoriais, dos anos litúrgicos, das datas de aniversário e de comemorações que sempre se repetem. A Igreja, assim como o povo de Israel no Antigo Testamento, compreendeu o aspecto memorial dos rituais e criou o “ano litúrgico”, separado e organizado de modo a relembrar a narrativa de Deus na nossa história. Algumas Igrejas Protestantes e Católicas mais tradicionais ainda observam o ano litúrgico, mas a maioria de nós, em nome dos tempos (pós)modernos, abdicou de trazer o sagrado para incomodar a nossa vida ordinária.

Precisamos de rituais. Deus sabe disso e, por isso mesmo, ele instituiu a Mesa do Senhor e o Batismo. O ritual serve para isso: um memorial de nossas crenças. O ritual cristão não deve ser mágico e nem se atribuir um poder para manipular o divino a nosso favor, pois isso já tem um outro nome: feitiçaria. E a Mesa do Senhor e o Batismo, portanto, não são rituais mágicos. Embora, na interpretação Reformada, eles sejam sim algo mais do que meros memoriais. 

Os casamentos cristãos também são rituais. Entretanto, os casamentos já foram tão desnudados de seu significado simbólico que as noivas - que já não cultivam a castidade e o branco de seus véus - nem mais são recepcionadas com a pompa e honra devidas (até para o fotógrafo descendo a passarela da nave as pessoas se levantam)! O casamento é mais um símbolo esgotado de nossa geração avessa à Tradição.

Escrevo este texto à luz do comentário de Franklin Ferreira sobre a conversão de Hank Hanegraaff à fé ortodoxa. E penso também sobre todos esses que transitam de lá para cá e vice-versa. Conversões entre as grandes tradições cristãs sempre houve. Eu mesmo sou um ex-romano, que fiz seminário para ser padre, mas, convencido pelo poder do ES, passei de lá para cá há 22 anos.

Fugindo da exegese apressadamente superficial de que aqueles que saíram do nosso meio só o fizeram porque não eram dos nossos, gostaria de citar o parágrafo retumbante de Franklin Ferreira: “Talvez a principal razão para tal mudança seja o fato de que para estes a instituição – a igreja – com sua hierarquia, símbolos e ritos, se tornou um fundamento e apoio à fé mais importante que a Palavra de Deus”.

E não é verdade? Pois a Reforma Protestante é fundamentada na centralidade da Palavra – Sola Scriptura. Todavia, como disse no parágrafo anterior, é simplista demais usarmos 1 João 2:19 para mascararmos os nossos próprios erros e a responsabilidade na saída desses de nosso aprisco. Podemos, como sempre, fugir do assunto e dizer que este texto jaz sob reminiscências do romanismo ou, mais ousadamente, sondar a decadência de nossa comunicação com a geração de nosso tempo acerca da fé reformada.   

A centralidade da Palavra sempre foi comunicada de uma forma que o povo compreendesse, seja por meio do Batismo, seja pela Mesa do Senhor, seja pelo Ano Litúrgico ou ainda outros símbolos. Acredito que a frase de Franklin Ferreira tem um posicionamento certo, equilibrado e necessário para despertar em nós uma autoavaliação, pois a centralidade da Palavra não significa a exclusão dos meios necessários, pedagógicos e didáticos, para a melhor comunicação com o povo.

Espero que os 500 anos da Reforma Protestante num país que, na verdade, nunca conheceu a Reforma seja uma ótima oportunidade de reflexão sobre o que temos feito de errado na nossa comunicação, seja tanto nos exageros pantomímicos mágicos como também na sequidão de uma liturgia que não se comunica mais com o coração humano sob a desculpa de que o culto é um serviço para Deus e não para o homem. 

Digo “desculpa”, porque antigamente eram os padres que viravam as costas para o povo e seguiam uma liturgia em latim, hoje em dia, contudo, são pastores e líderes protestantes que se negam a olhar nos olhos do povo em nome de um purismo litúrgico, que, concordo, não pode ser antropocêntrico, mas não precisa ser descontextualizado e alienado.

Que este ano seja o início de uma reflexão dos Reformados sobre a expressão da nossa fé em solo culturalmente brasileiro e o que isso, de fato, significará para as futuras gerações.  
   

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