quinta-feira, 29 de junho de 2017

A fé romana comparada à fé reformada a partir dos sermões de Leão Magno (2ª parte): O problema da caridade romana e do amor protestante


“Existe mais perigo num traidor escondido do que num inimigo manifesto” - nesta declaração de Leão Magno podemos ver, embora não fosse essa a ideia original do autor, que o Cristianismo foi muito competente no combate aos inimigos manifestos, mas se deixou envolver pelos traidores escondidos.

Como disse no post anterior, o encontro do Cristianismo com a cultura helênica, especialmente o estoicismo, pode ter marcado muito mais o Cristianismo no seu nascedouro do que a tão comentada influência da filosofia clássica (Platão e Aristóteles). E a Roma pagã, de maneira especial, estava aberta muito mais ao estoicismo do que à Filosofia Clássica, por causa do apelo religioso embutido no estoicismo. Em Ambrósio (339-97) já vemos essa influência do estoicismo (na verdade, Tertuliano, 155-215, é o primeiro que apresenta traços da doutrina do estoicismo no seu cristianismo), assim como o primeiro na Série Patrística a desenvolver a lógica da intercessão dos santos.

O estoicismo tinha muitos elementos semelhantes com o Cristianismo, a começar pela similaridade da ética de ambos. Assim, terminei o último post trazendo que o estoicismo tem grande responsabilidade na construção da mariologia, da supressão dos desejos sexuais, da instituição do celibato e, até mesmo, no mecanismo de mérito e purificação na instituição da misericórdia como elemento para o alcance da santidade.

A presença dos livros de Tobias, Sabedoria e Eclesiástico como Escritura nos sermões de Leão também corroboram ao lado do estoicismo com a construção de uma salvação meritória. Todavia, a mensagem do Novo Testamento é clara ao dizer que o pecador é justificado pela fé (e não pelas obras ou pela “sabedoria”, que, no livro de Eclesiástico é associada à lei e não a um Messias libertador), portanto, era preciso coadunar essas duas doutrinas excludentes: a salvação pelas obras (pregada nos escritos deuterocanônicos) e a salvação pela fé no sacrifício de Jesus ensinada no Novo Testamento. 

A teologia que surge nos sermões de Leão Magno entrelaça essas duas doutrinas: 1) só há salvação em Jesus; 2) as obras fora de Jesus(as boas obras dos pagãos, por exemplo) só tem valor para o próximo, mas não para a salvação; 3) a salvação conquistada por Jesus é para “abrir a porta do céu” ao ser humano; 4) contudo, como o ser humano continua pecador, as boas obras (principalmente as de misericórdia) garantem a purificação destes pecados cometidos pelo crente. Conclusão: a salvação é pela fé, mas é garantida pelas boas obras. O problema é que isso é totalmente diferente do que é pregado no Novo Testamento, onde as boas obras devem ser fruto da verdadeira fé e não meios para garantir o que a fé não seria capaz de dar: santidade.

Na teologia de Leão Magno o sangue de Jesus tem poder para cobrir o pecado original que nos separa de Deus, contudo não garante a salvação final. Esta só é garantida pelas obras de misericórdia (ainda que Leão diga que a esmola e a ajuda ao pobre sejam a maior de todas as virtudes, ele soma à misericórdia o perdão e a denúncia e delação dos hereges escondidos).

O problema natural que aparecerá em Leão é que há pecados graves e pecados leves. Para estes, bastam as obras de misericórdia e penitência (esmola, jejum, oração, perdão), mas para aqueles é necessário contar com a intercessão de homens santos. Para justificar essa intercessão, Ambrósio (aqui e aqui) lembra de Moisés que, diante de um pecado imperdoável, intercedeu e mudou o coração de Deus em favor do povo. 

Os próximos passos na construção das doutrinas alicerçadas nas obras, no mérito (seja no meu ou no mérito do santo) é para dar conta das falhas que irão surgir: e se eu morrer em pecado grave e não tiver tido tempo para pedir perdão, para ter feito penitência ou pedir intercessão? Para responder a essa pergunta é preciso de uma nova doutrina que, até agora, não foi ventilada por nenhum dos livros lidos até aqui na série da Patrística: a doutrina do purgatório. Ora, se o sangue de Jesus me salvou, mas, por alguma situação da vida, eu morri em pecado, sem garantir a minha salvação mediante as obras, então eu irei para o inferno? A doutrina do purgatório surgirá como uma necessidade lógica: as obras de outro (e o meu sofrimento também) serão contadas para livrar os “salvos por Jesus” do purgatório. Como essas e outras doutrinas começaram a ser redigidas pela pena papal, que trazia para si a autoridade de estar no lugar (vigário) de Cristo, ficará cada vez mais difícil voltar atrás sem que todo o castelo venha abaixo. Em outras palavras, voltar atrás em doutrinas assim é afirmar que o papado erra e, portanto, não se poderia mais afirmar que o poder e autoridade conferidos a Pedro, conforme defendido por Leão, estão vivos e ativos in sede sua, isto é, na Igreja Romana.

Temos uma gama de doutrinas meritórias de um lado e, do outro, a única doutrina que verdadeiramente importa: a suficiência de Cristo! Ou Cristo basta e seu sacrifício garante não apenas a “porta aberta”, mas também a própria passagem para o lado de lá ou teremos que construir uma rede de doutrinas que fazem com que a salvação dependa quase que exclusivamente do cristão e não de Cristo! A doutrina da suficiência de Cristo é a fé em toda a extensão, o que, na verdade, revela a Graça de Deus: aquele que começou a boa obra haverá de termina-la! Jesus é o autor e o consumador da nossa fé! O seu sangue não apenas perdoa, mas purifica o nosso pecado toda vez que confessarmos a ele (I João 1:8).

O problema da caridade romana e do amor protestante

Arrisco dizer que é mais fácil compreender a ira do que o amor de Deus. Aliás, o amor é uma exegese complicada e que nos embaralha com diversas palavras associadas na história: amor, caridade, ágape, caritas, misericórdia e compaixão, por exemplo. Por tudo isso, afirmo que o amor bíblico não é algo tão simples assim de compreendermos e, prova disso, é que uma das diferenças cruciais da tradução católica e da tradução protestante se refere exatamente à permuta amor/caridade, que mais do que mera escolha de tradução revela duas cosmovisões que separam católicos e protestantes há meio milênio.

Leão Magno escreve em latim, mas, pela data, será que ele já tinha em mãos a tradução de seu contemporâneo Jerônimo? O que eu sei é que os pais da Igreja não dominavam o hebraico. Contudo, Leão Magno era um homem erudito. Chamo atenção para isso, porque ele vai insistir muito em duas palavras: misericórdia e caridade, em latim elas são misericordiam e caritas. Como se percebe, do latim para o português foi um pulo: misericórdia e caridade. Todavia, as coisas não são tão simples assim. Na versão protestante, caritas é traduzida por amor, ou melhor, as bíblias protestantes não traduzem do latim, mas do grego e a palavra que aparece no texto grego é ágape (ἀγάπη).

Mas, afinal, o que é ágape, que é traduzido por “amor” nas bíblias protestantes e por “caridade” nas bíblias católicas e qual o interesse disso para este meu texto sobre os sermões de Leão Magno? A questão é que a visão de Leão Magno sobre a misericórdia/caridade como a virtude sobre todas as virtudes nasce da compreensão da palavra caritas. Mas o que caritas tem a ver com misericórdia? Em português, na nossa cultura, é muito fácil associá-las e até tê-las por sinônimo. Mas e no tempo de Leão Magno? A ligação entre as duas palavras se dá por causa do grego. Veja, embora o latim tenha uma palavra para misericórdia (misericordiam), o grego no texto de Mateus 5:7 é ελεηθησονται, que deriva de ἐλεέω, que, na maioria das vezes, é traduzido por “compaixão”. Aliás, misericórdia e compaixão são duas palavras similares até em suas composições: miserê (pobre, abandonado, etc) + córdia (coração), que nos traz a ideia de "misericordioso é aquele que se dói com a situação deplorável do outro) e com+paixão (no sentido de dor, sofrimento), que nos traz a ideia semelhante que "compassivo é aquele que está junto, apoiando, se identificando com o outro no seu momento de sofrimento".  Mas o ponto em que quero chegar ainda não é esse. 

Em Mateus 6:2ss, temos uma palavra em grego, ελεημοσυνην, que deriva exatamente de ἐλεέω, mas que é traduzida neste e em tantos outros textos como “esmola”. Pronto! A ligação entre caritas e misericordiam está feita! Na visão de Leão Magno, a caridade e a misericórdia são expressas fundamentalmente por meio das esmolas dadas aos pobres. E será esta compreensão que herdaremos do catolicismo romano em relação à caridade. O problema que reduzir “caridade” ao apoio material dado ao pobre é reduzir o conceito de “amor”, ou melhor dizendo, é reduzir o conceito do ágape de Deus, que é “dar-se em sacrifício ao outro por obediência a Deus e não por um sentimento humano” e nem tão pouco por uma ação de “desencargo de consciência”, mecânica, mercantilista (I Cor 13:3) para garantir a própria salvação.

Sobre o que acabei de dizer acima, gostaria de dizer que discordo de D.A. Carson em muitas coisas e o entendimento dele sobre a palavra ágape é uma delas. Assim, embora a palavra ágape seja utilizada na Bíblia com diversos sentidos, como Carson nos chama a atenção, é para os textos específicos que eu me volto para tratar do ágape no sentido dado no parágrafo anterior (I Cor 13, I Jo 4:8, Rm 5:8 e Jo 15:13, por exemplo).

Assim, ao traduzir ágape por caritas e fazer a redução dessa ao entendimento de mera ajuda ao outro para obter a salvação (Mt 5:7), fazendo da caridade (entenda-se principalmente esmola) a maior das virtudes, pois a esmola, para Leão, era capaz de purificar os pecados, esse entendimento acaba gerando a outra base para uma fé meritória, uma fé pragmática, que completará a construção da fé romana. 

Por outro lado, a tradução “amor” também carrega o peso viciado de uma cultura sentimentalista. Pois Deus não nos manda “sentir” amor pelos inimigos, mas agir em favor deles, independente do que eu sinta no meu coração ou não. Em outras palavras, o “amor” protestante cria a falácia de que o amor de Deus é semelhante ao sentimento humano, quando, na verdade, não é. Quando tratamos “ágape” por um sentimento, uma emoção, interpretamos erroneamente Coríntios 13, como se a tese de Paulo fosse que mesmo que eu faça tudo isso, se não tiver um sentimento, uma emoção, no meu coração de nada adiantará! Ora, um dos erros desse entendimento é que, enquanto eu não “sentir”, então eu não faço, porque, se não houver esse sentimento no meu coração, eu seria um hipócrita se realizasse as coisas para Deus e para os homens. Erro crasso no meio protestante da Igreja Brasileira posso dizer.

Recapitulando: o amor bíblico não é moeda de troca pela garantia da salvação (visão romana) e também não pode ser um mero sentimento (visão predominante no meio evangélico). Enfim, para Deus, o amor é uma decisão racional baseada não no meu coração e nem num desejo de garantir a salvação, mas, ao contrário, o amor deve ser baseado no fato de que Deus nos amou primeiro, isto é, Ele agiu em nosso favor. Assim, a caridade, a misericórdia, o amor que Deus quer que eu tenha pelo próximo, seja ele ímpio ou não (embora eu deva priorizar o bem que posso fazer aos irmãos da fé), é uma resposta à Graça de uma salvação recebida imerecidamente.

Há ainda um ponto que gostaria de trazer à tona num último post sobre essa pequena série de reflexões a partir dos sermões de Leão Magno.

Leia também os dois posts anteriores a este:

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