terça-feira, 6 de junho de 2017

Por que eu me tornei um cristão? (Reflexões sobre o filme “Eu sou Michael”)

O filme “Eu sou Michael”, com James Franco e Zachary Quinto, conta a história de Michael Glatze, ex-ativista gay que se torna pastor e funda sua própria igreja. A narrativa é baseada não em uma autobiografia, mas num artigo, “Meu ex-amigo gay”, escrito por um amigo de Michael Glatze. E isso também explica o final frustrante do filme, que aponta para o fato de que nada daquela pretensa experiência espiritual foi real. Além disso, a direção é de Justin Kelly, homossexual assumido, que não foge de apresentar claramente a tese do filme. Todas as críticas que li sobre o filme insistem em dizer que Justin Kelly tenta “não tomar partido”, porém, nada mais distante da verdade do que não compreender a sua mensagem óbvia, que é o que vou trazer neste artigo. 

Antes de tudo, gostaria de compartilhar que o filme me instigou a refletir sobre a minha própria conversão: afinal, o que me levou a abandonar minha vida pregressa e seguir a Jesus?

Para o espectador, fica claro que as primeiras indagações de Michael se dão não a partir do seu encontro com a verdade, mas por causa do medo, o medo de não saber o que vai acontecer depois da morte. Tanto que, em determinado momento, o personagem principal expressa que toda aquela mudança radical está ocorrendo porque o seu desejo é morar com seus pais no Céu. De família cristã, ele não estava presente no momento da morte da mãe, mas jogou suas cinzas aos pés de uma árvore. Ao visitar novamente o local, Michael fica assombrado que as cinzas ainda estejam lá: “ela ainda está aqui”, diz ele para o namorado que o acompanhava. O pai de Michael morreu subitamente ao seu lado, enquanto caminhava com ele na praia. Esta morte, especialmente, era uma sombra que o atormentava, porque ele imaginava ter a mesma doença cardíaca que matou seu pai. Após exames médicos, Michael descobre que não tem a doença. O que ele havia tido era um ataque de pânico, causado pelo medo da morte, ou melhor, do que aconteceria com ele após a morte. Aliás, o filme começa com uma cena de morte: o assassinato de um casal de gays. 

Toda essa questão da morte é ressaltada por um amigo que diz que a “terra era uma mancha no espaço e que a existência humana havia acontecido em algum ponto de uma linha do tempo”. Ao dizer isso, esse mesmo amigo indaga: “É preciso que haja algo mais, não?”. O desenho que Michael sempre fazia no papel, e que ele explicava como sendo o infinito, era o desenho de uma espiral, que de infinito não tinha nada, como bem constata um amigo em determinada cena: “olha, aqui é o início e aqui é o fim”, diz, apontando o dedo para as duas extremidades da espiral, desmoronando rapidamente a construção ilusória de “infinito” de Michael.  

Além da espiral mostrar para o espectador que a ideia de infinito de Michael não é real, para que mais o filme usa esse símbolo? A espiral do filme faz referência direta à “espiral do silêncio”, teoria da Comunicação que descreve aquela situação em que indivíduos silenciam suas opiniões contrárias quando percebem que são minoria. Neste sentido, um sentido positivo, Michael é um “quebrador de espirais do silêncio”, tanto quando “saiu do armário” como quando rompeu a pressão da comunidade gay ao anunciar que não era mais gay. 

Contudo, o filme atropela a teoria da espiral do silêncio, revelando que as motivações que levam um indivíduo a destruir a espiral podem não ser nobres, genuínas ou verdadeiras. Então, no filme, como funciona o símbolo da espiral? A espiral é um buraco. O buraco existencial no qual Michael está caindo e que nunca chegará ao fim: o infinito é um abismo, um buraco negro, e não um progresso espiritual. O filme, portanto, não é uma crítica ao mundo promíscuo e permissivo gay e nem tão pouco uma crítica à religião, mas é uma crítica às pessoas que se escondem por trás de mudanças radicais. Todos sabemos que “sair do armário” é uma mudança radical, assim como “largar tudo por Jesus” também é. Há profundas perdas nessas duas atitudes. E a tese do filme é mostrar que tanto um caminho quanto o outro são quedas num buraco negro, pois o problema real do qual estamos fugindo não encontrará resposta em mudanças drásticas de 180 graus. Por isso, no final do filme, quando tudo parecia resolvido na sua busca por si mesmo, Michael tem uma nova crise de pânico, mostrando para o espectador que seu problema ainda estava lá e que talvez seja um problema que não tem nome, nem sabemos bem qual sua origem e talvez nunca encontremos respostas. Caberia, assim, que cada um se aceitasse a ser o que é ao invés de se lançar numa espiral que, no fim, não vai te levar a lugar algum. A vida é isso, somos isso e ponto. O resto é o nada.

Por que abandonei toda minha vida pregressa e, assim como Michael, segui a Jesus? Por medo? Medo da morte? Medo de não ir para o céu ou de ir para o inferno? Ou, quem sabe, medo de no fim não haver nada? Aqui o filme apresenta aquela velha crítica europeia e iluminista sobre o espantalho do cristianismo medieval, que ainda persiste na mentalidade do homem moderno. O cristianismo apresentado no filme é aquele que se aproveita do medo e, colocando o ser humano em crise, apresenta-se como solução daquilo mesmo que o próprio cristianismo teria criado na mente das pessoas. O filme dialoga é com essa caricatura medieval de cristianismo. 

Em antropologia, aprendemos que o medo, a vergonha e a culpa não são criações da religião cristã, mas são elementos presentes na cosmovisão de culturas que, até mesmo, nunca tiveram contato com a Bíblia ou com a tradição judaico-cristã. Algumas culturas tem o medo como elemento mais preponderante de sua cosmovisão (é o caso das culturas indígenas), em outras é a vergonha (a cultura japonesa) e outras ainda tem como elemento mais preponderante de sua cosmovisão a culpa (a cultura americana, por exemplo). Na primeira, toda a economia diária é baseada no medo dos espíritos. Na segunda, a vergonha de ser exposto, de se ver desonrado. Na terceira, podemos vê-la naquela criança que não pode desperdiçar comida no prato, porque “milhões de crianças africanas estão morrendo de fome”. 

Se o Evangelho se aproveitasse do medo que ele mesmo teria semeado (medo do inferno ou de um Deus irado, por exemplo), pouquíssimas culturas no mundo teriam respondido afirmativamente ao apelo da pregação. As religiões não têm sua origem no medo apenas, porque muitas culturas estão envolvidas com muitos outros aspectos da vida humana que excedem o mero “temor da morte”. As religiões respondem às questões de vergonha e culpa também. Por isso, reduzir o cristianismo a um movimento de mentalidade revolucionária existencial, que cria o problema do medo e se apresenta, posteriormente, como solução é reduzir, antes de tudo, o próprio ser humano e suas idiossincrasias.

Por que eu abandonei a minha vida pregressa e segui a Jesus? Será que o meu cristianismo é apenas mais um degrau abaixo nessa espiral infinita de uma existência que pode nunca ter respostas às suas indagações? O filme “Eu sou Michael” é uma ilustração interessante e que me ajuda a responder a essas perguntas. Acredito que o ser humano, assim como Michael (o personagem do filme e não a pessoa real), pode ter seus medos, suas vergonhas e culpas e identifica-las. Mas, como o próprio filme quer mostrar, as mudanças radicais, as revoluções existenciais, serão apenas mais um degrau na espiral rumo ao nada, caso toda essa busca seja pautada na experiência subjetiva como referência! A homossexualidade, o cristianismo gay, o mormonismo, o budismo e o cristianismo independente de Michael fazem parte de uma mesma jornada espiritual em busca de si mesmo, mas, como vemos no filme, não vai dar em nada, porque é impossível ao homem natural entender das verdades do Espírito Santo (I Cor 2:14). 

O problema é que o medo, a vergonha e a culpa são elementos que, usados como veículos para uma busca interior, uma mudança de vida ou de rumo, realmente não garantem nada a ninguém. O filme acerta em cheio ao falar isso, pois tanto uma militância gay como um ativismo cristão podem esconder pessoas que estão apenas despencando numa espiral que mais parece um ralo tragando para dentro os nossos piores dejetos. 

Você não pode esquecer que o filme é baseado num artigo de uma testemunha descrente do que ocorreu com Michael (agora, refiro-me ao verdadeiro e não à personagem). É o mundo julgando a conversão do verdadeiro Michael, que hoje é pastor, casado e com filhos. O mundo vê como loucura o que o verdadeiro Michael fez e, então, criou um personagem e o colocou preso na espiral que o próprio mundo hoje se encontra encarcerado. É inaceitável ao mundo que Michael tenha achado uma porta de saída para todo esse niilismo. 

Não foi o medo, nem a vergonha e nem a culpa o que me trouxeram para Jesus. Não estava em crise de pânico como Michael, ou com vergonha das minhas ações, ou sentia-me em dívida com alguém, embora eu creia que muitos usem desses elementos para chegarem bem perto de Deus, todavia, "chegar bem perto" não é chegar lá! O verdadeiro encontro com Jesus não se sustenta nesses elementos, pois são apenas elementos humanos, carnais e não revelam a Deus. 

Olhando para trás, mas a partir da proposta do filme também, pergunto-me:  o que me levou até Jesus? E a resposta mais sincera que posso dar é “amor”, mas não o meu amor e sim o amor de Deus. Tudo aconteceu quando eu descobri que Deus sempre me amara, mesmo antes de me apresentarem ao Senhor Jesus! Esta foi a descoberta libertadora que o Espírito Santo trouxe para mim: Deus sempre me amou! Desde o ventre da minha mãe, que não optou por me abortar mesmo diante das circunstâncias de sua gravidez; Deus me amou quando me tirou aos dois anos de idade de uma vida que chegaria à morte certa; Deus me amou presenteando-me com uma nova vida que eu mesmo nunca havia pedido; Deus me amou dando-me uma família, o amor de parentes que me amaram apesar de quem eu era; Deus me amou livrando-me da morte tantas e tantas vezes por causa de um estilo de vida destrutivo em que eu mesmo me colocara; enfim, Deus me amou quando eu não O amava! Foi olhando para minha vida sem Jesus que eu me surpreendi com a presença dEle o tempo todo!

A verdade, então, é que eu nunca precisei ir ao encontro de Jesus, porque Ele sempre esteve lá, quando eu sequer sabia da sua existência. Foi assim, num dia qualquer, sem ataque de pânico, sem constrangimentos, sem ser coagido a confessar meus crimes, foi num dia comum, mas foi um dia lindo, o dia mais lindo de toda a minha vida, o dia em que o Espírito Santo me tornou consciente do amor de Deus por mim. O que aconteceu? É que faz parte da natureza do amor te deixar sem graça, encabulado, pois é muito amor por alguém que nem sabia o que era amor de verdade. O Espírito Santo, então, mostrou-me que todo esse amor de Deus faz parte da Sua justiça e que não era um amor de graça, mas Jesus teve que morrer para que eu recebesse todo esse amor; o Espírito Santo também me convenceu de que faz parte do amor o julgamento e que o pecado cobrou um alto preço na Cruz. Todavia, ao aprender essas verdades, eu já estava totalmente rendido pelo amor. Foi o amor de Deus que me mostrou que toda minha vida pregressa é esterco e que o melhor da vida será o dia da volta do meu Senhor, pois eu quero sim morar com Jesus no Céu! Foi o amor, o amor de Deus por mim, que realizou e ainda vem realizando toda essa maravilhosa mudança... 
Há muito que o Senhor me apareceu, dizendo: 
Porquanto com amor eterno te amei, por isso com benignidade te atraí.
Jeremias 31:3

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