domingo, 16 de julho de 2017

A TMI e a formação da diabolicíssima trindade (parte 2)


Toda seita parte de uma verdade. Toda seita é a exacerbação de um ponto doutrinário. Toda seita é uma caricatura de uma religião. O Evangelho do nosso Senhor Jesus é uma tapeçaria de doutrinas que se equilibram entre si e formam um todo belo e verdadeiro. Contudo, a seita elenca um ou dois pontos dentre as verdades de Deus e os extrapola, exacerba-os, acabando mesmo por mutilar a obra da tapeçaria do Evangelho puro e simples devido ao peso excessivo dado a um ponto e não a outro.

A Teologia da Prosperidade é um bom exemplo disso. Há verdade nela. Qual? Deus prospera o seu povo – esta é uma verdade que podemos encontrar na Bíblia. Entretanto, a prosperidade bíblica não é necessariamente financeira. Ao pregar que “Deus tem que prosperar aquele que é filho dEle”, que “Deus tem que suprir as minhas necessidades”, etc, estamos criando um monstro teológico que delimita a liberdade e o poder de Deus, colocando a criatura no lugar do Criador.  

Há verdade na Teologia da Missão Integral também. A verdade da TMI é que o ser humano avança no fosso de sua angústia. E isto é um fato bíblico: somos seres destituídos da amizade com Deus. Somos seres angustiados - esta é uma verdade! Contudo, essa constatação da TMI não é fruto da fé em Rm 3. 10-19, mas ela vem pelo ferramental das ciências sociais forjadas no século XIX na Europa. É a sociologia, a filosofia moderna e a psicologia que revelarão a alma angustiada do homem. Por isso, a abundância de citações, por exemplo, de Heidegger, Freud e a influência do behaviorismo e do existencialismo.

É preciso que o adepto da TMI tenha uma resposta à crise humana. A resposta não se encontra na exposição do Evangelho todo ao homem todo, mas, tão somente, o aspecto da justiça terrena ao homem econômico, que é um mero “produto” do seu meio. Desde a Teologia da Libertação, quando a práxis marxista se tornou o modelo de análise da situação do homem, do “ser-aí”, como diria Heidegger, em detrimento do método bíblico e universal do homem "quedado-em-si", as circunstâncias em que o homem se vê inserido passa a defini-lo para a esquerda cristã. Ora, o que estou querendo mostrar é que se as nossas perguntas estão erradas, obviamente, as respostas também estarão. Em outras palavras, se olhamos para o meio social e a partir desse ambiente deixamos que as perguntas surjam, então as respostas descreverão apenas os aspectos imediatos, sistemáticos e serão respostas de um recorte limitado àquelas realidades. Apenas isso. É o método científico aplicado sobre questões eternas e metafísicas. Realmente, isso não pode nunca dar certo mesmo.

Como resultado de perguntas erradas, teremos que a angústia do ser humano é fruto da exploração trabalhista inerente às relações humanas. Estamos todos explorando a todos: maridos exploram suas esposas, pais exploram seus filhos, avôs exploram seus netos, enfim, todas as relações humanas são reflexos das relações de exploração da eterna luta de classes, luta essa instaurada no Éden, quando o próprio Deus patrão condenou o homem ao trabalho escravo por causa do pecado. Deus é o patrão por excelência e, se isso não está claro para os adeptos da TMI, sempre esteve para Marx.

A TMI, e pra constatar o que vou dizer basta olhar nas bibliografias de seus livros e artigos, está deitada no berço esplêndido da mentalidade anticristã que confrontou e tem lutado para desenraizar os valores judaico-cristãos do nosso mundo. Uma rápida olhada nas referências bibliográficas da produção intelectual desse movimento trará, além de Marx, nomes como Heidegger, Freud e Skinner. Mas qual o mal de beber nas ciências sociais que se desenvolveram a partir dos séculos XVIII e XIX? Sinceramente, se fosse tão somente para perceber que homens descrevem o próprio inferno em que vivem, não veria problema algum. Porém, o que vemos é que não há uma leitura crítica dessa produção intelectual que se posiciona totalmente fora do centro de Deus e que, descaradamente e muitas vezes, confronta de maneira feroz a cosmovisão cristã. 

Aceita-se o diagnóstico de cientistas ateus e, pior ainda, também a prescrição médica que eles repassam à igreja! E o remédio, no fim de tudo, é aplicado onde o Evangelho teria sido incapaz de cobrir com seu discurso “meramente espiritualista”, dizem os adeptos da TMI. O que a TMI finge não ver é que, usando desse arcabouço teórico como um apoio às Sagradas Escrituras, eles violam a doutrina mais emblemática da Reforma Protestante: o sola scriptura, cometendo, assim, o mesmo erro do qual acusam incorrer a TP! Portanto, a TMI é apenas um oposto da TP, um contrário, a outra face de uma mesma lua, filho da mesma Equidna da qual tratei no post anterior.


A esses e outros temas retornarei no próximo post.

Leia o post anterior: 

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