sábado, 23 de setembro de 2017

Conservador? Eu?!!!

As pessoas gostam de rótulos. Umas perguntam o que eu sou. Evangélico? Protestante? Calvinista? Outras não perguntam, já dizem logo: burguês, opressor, alienado, coxinha. Já ouvi de tudo.

Um dia, porém, alguém me chamou de “conservador”. Eu não sabia o que era isso, mas pareceu-me melhor do que outro rótulo que já haviam me colocado: “reacionário”.

Para conversar com as pessoas que insistiam em me tratar dentro de algum grupo ao qual elas julgavam que eu pertencesse, tive que ir estudar o que, de fato, essas palavras queriam expressar. Não dá para se lançar ao mar sem saber nadar, não é?

Muitas vezes, por usarmos as mesmas palavras, acreditamos que damos o mesmo conteúdo a elas, quando, na verdade, o outro está falando de outra coisa que não tem nada a ver com o que você está discutindo.

Não só palavras enganam, mas também são mal usadas!

Um exemplo muito simples é a palavra “Jesus”, que para Mórmons, Testemunhas de Jeová, Muçulmanos e Espíritas não se referem ao mesmo conteúdo que a tradição judaico-cristã nos legou.

Outro exemplo. “Justiça”, “igualdade”, “pecado”, “liberdade”, “novos céus e nova terra” que, para teólogos da Teologia da Missão Integral, os autointitulados “teólogos da práxis”, são palavras e expressões que têm um conteúdo radicalmente diferente do atribuído pela tradição judaico-cristã.

Palavras são assim: dependendo de quem as use, podem até significar um xingamento! É o caso da palavra “conservador”. Estudando, descobri que há vários “conservadorismos”.

Todavia, o que eu identifiquei como o mais interessante, pelo menos como ponto de partida para aprender mais sobre essa palavra, foi o conservadorismo de Edmund Burke (autor de “Reflexões sobre a Revolução em França”): que se apresenta, antes de tudo, como uma resposta antirrevolucionária e antiutópica.

Em outras palavras, os novos céus e a nova terra não serão instaurados pela revolução sangrenta, pelo rompimento com o passado e pela crença de que alguém sabe o que é melhor para mim e imporá sua “sabedoria” por força do Estado.

Compreendendo o que eu disse acima, também fica fácil desassociar o conservadorismo do movimento reacionário, que é o extremo oposto do espírito revolucionário e que se apresenta como uma idolatria ao passado, buscando enrijece-lo a todo custo.

O conservadorismo de Edmund Burke não é um apelo a uma suposta época de ouro de um passado longínquo, mas, como já coloquei neste artigo ("Por que ainda sou católico?), é uma abertura às mudanças, às reformas necessárias, sem ruptura traumática e irracional com a herança que a Tradição nos ofereceu de melhor.

Assim, percebo como que discursos revolucionários (no pior sentido da palavra) como o da TMI do Ariovaldo Ramos podem enganar pelas palavras que usam, mas que, para o cristão atento, logo se vê que os conteúdos não são bíblicos.

O vídeo (aqui) é um exemplo maravilhoso de tudo o que o pensamento marxista na base da teologia de uma pessoa é capaz de fazer: inversão de valores bíblicos, distorção de conteúdo de palavras e da história, rompimento com o passado, a defesa de que Marx é quem leu a Bíblia e a compreendeu melhor que os teólogos cristãos, fobia teológica a tudo o que é “gringo”, aquele mesmo espírito do “nunca antes na história deste país” (no caso, da América Latina) e muito mais.

Você descobrirá, assistindo ao vídeo, uma informação surpreendente: Marx rompeu com Deus não por que ele se revoltou contra o Deus da Bíblia, mas porque Marx se revoltou com os teólogos do seu tempo (“gringos” para Ariovaldo)! E Ariovaldo se coloca ao lado de Marx e diz que também tem vontade de romper com esses teólogos.

Aliás, você verá no vídeo que o velho marxismo continua o mesmo. No final, os teólogos “gringos” são julgados por Ariovaldo, que dá sua sentença a eles: “eles estão indo para um lugar bastante acolhedor, muito quente”! Chamo isso de xenofobia teológica.

Esta é uma das muitas dicotomias – o bem e o mal – que caracteriza a mentalidade revolucionária marxista aplicada ao Evangelho. O que for “gringo” é mal, destinado ao inferno. O que for latino-americano é bom, destinado à libertação.

No resumo da ópera, o discurso do Ariovaldo revela que a TMI não veio apenas libertar as pessoas oprimidas pelo inferno do “sistema”, mas a TMI veio libertar a própria Igreja Brasileira e Latino-americana da opressão da Teologia “gringa”!

Nem tudo que reluz é ouro. Nem tudo que se esconde sob os rótulos de “gospel”, “de Jesus”, “evangélico”, “reformado”, “cristão” têm o mesmo conteúdo construído pelo cristianismo histórico posto à prova nos últimos quase dois milênios.


Enfim, se quem, naquela primeira vez, me chamou de conservador o fez no sentido que eu tratei aqui neste texto, agradeço, porque este que aqui vos escreve não pode abdicar da característica que se vê mais defendida por Edmund Burke: o direito de pensar.

Este artigo foi originalmente publicado no GospelPrime no dia 19/09/2015.

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