quarta-feira, 22 de março de 2017

Davi, o líder que caiu (7º artigo de 9)

Todo pecado, por menor que possa parecer (uma cola de prova, por exemplo), coloca-nos debaixo da maldição da lei. Assim, neste sentido, não há “pecadinho” e “pecadão”: todos pecamos e todos estamos debaixo da Ira de Deus (Gl 3:10).
Entretanto, a Bíblia também é clara ao dizer que, embora todos os pecados sejam odiosos a Deus, há pecados abomináveis a Deus. Pecados que, aos olhos dEle, são totalmente repulsivos.
Tais pecados recebiam uma punição muito mais severa do que outros no Antigo Testamento. Estou falando, por exemplo, do adultério e do homicídio, que eram punidos com a morte (Lv 20.10; Lv 24.17; Êx 21.14). E, mesmo no Novo Testamento, Jesus diz que há um pecado imperdoável: a blasfêmia contra o Espírito Santo (Mt 12:31).
À parte da breve exposição acima, há o fato de que existem pecados cujas consequências sociais são evidentes, atingindo não somente o pecador, mas também as pessoas ao seu redor.
O pecado do adultério encaixa-se em tudo o que foi dito até agora: é um pecado odioso (como todo pecado), é um pecado abominável (cuja punição era a morte) e, finalmente, suas consequências sociais são desastrosas para muitas famílias e igrejas.
A pergunta que ouso fazer é a seguinte: e se eu e você cairmos em adultério? Não é possível?! Por acaso somos melhores que o Rei Davi? Eu não sou. Aliás, sinceramente, estou plenamente convencido de que sou pior do que o Rei Davi em muitos sentidos, então, por que deveria enganar-me e usar uma máscara de super crente?
Acredito que eu e você precisamos ensinar a Igreja não só a prevenir a tragédia do adultério, mas que também é possível a esperança da ressurreição.
Eu não aprendo com o Rei Davi apenas como “ele cavou a própria cova”, mas de que maneira foi possível Deus não retirar dele a coroa da glória, mesmo depois de todos os crimes que cometeu.
O problema é que pecados sexuais dentro de nossas igrejas trazem tanto dano que, dificilmente, por várias razões mundanas, egoístas e farisaicas, não estendemos nossas mãos para resgatar o ministério de nossos líderes.
Parece mesmo que com uma igreja hipócrita como a que temos encontrado muitas vezes no Brasil, basta ao diabo preparar a armadilha para derrubar o líder, porque, uma vez caído, mantê-lo no chão será um trabalho que a própria Igreja fará tranquilamente por Satanás.
O que fazer quando um líder cai? Precisamos chorar com nossos líderes que tanto nos alimentaram. São pastores que precisam de pastoreio; são conselheiros que necessitam de conselhos; e médicos que precisam de nossa assistência.
É com profunda tristeza, contudo, que constatamos, frequentemente, ser um malévolo sorriso de “bem feito” ou uma cara de “eu sabia” o que muitos oferecem ao invés de mãos estendidas.
O líder, ainda que perdoado por Deus, poderá não ser perdoado por muitas pessoas e poderá pagar um preço altíssimo com a estigmatização de sua própria família. Todas essas consequências estão muito bem registradas na história do Rei Davi para que o temor aja como prevenção à nossa loucura (Pv 5).
Surpreendentemente, Davi não perdeu a coroa como aconteceu com o Rei Saul. Havendo arrependimento sincero, por que a Igreja não consegue dar ao mundo um testemunho cristão pela maneira como trata, perdoa e restaura suas lideranças depois da queda?
Ensino 6: O líder precisa ser liderado, precisa ser acompanhado na sua caminhada por outro líder, tanto para ajuda-lo na prevenção de certos erros como na restauração real de seus pecados.
Leia também o 6º artigo desta série: “Moisés, o líder no deserto“.
Publicado originalmente no GospelPrime.

terça-feira, 21 de março de 2017

Moisés, o líder no deserto (6º artigo de 9)

Há pessoas que são chamadas por Deus para serem líderes na prosperidade, porque a prosperidade traz o seu quinhão de desafios: acomodação, luxuria, preguiça, materialismo, frieza espiritual, indiferença, etc.
Há aqueles, contudo, chamados para serem líderes no deserto, enfrentando os desafios próprios que ele guarda, e este foi exatamente o chamado de Moisés.
Chamado por Deus para ser um líder em meio a uma miríade de diversidades, Moisés viveu no deserto de Deus bem longe da prosperidade do palácio de Faraó. Uma das cenas que mais ressalta o aspecto que eu e você devemos aprender deste líder se deu no trágico evento do bezerro de ouro (Êx 32).
Vamos contextualizar a história para que você possa se identificar melhor: imagine que você saia do conforto da sua casa; da segurança da sua cultura; passe anos aprendendo uma língua e cultura tão adversas; e seus filhos se vejam limitados a viver uma vida que eles não escolheram, por causa da liderança que você assumiu.
Mas não é só isso: várias pessoas do próprio povo não reconhecem o seu esforço e amor por eles e se levantam contra a sua liderança; atrapalham o trabalho de evangelização e plantio daquela igreja; não valorizam o seu investimento em oração e estudo da Palavra; até que, finalmente, aquele povo decreta que você deva morrer.
Sem aviso prévio, quantos missionários ou pastores já não viram, de uma hora para outra, seu sustento financeiro cortado sem que a igreja sequer se incomodasse com o que seria da sua família?
Simplesmente, decidem que você não serve mais, porque a “visão” da Igreja mudou ou as “prioridades” agora são outras. São igrejas que passam a se comportar como os povos pagãos, louvando bezerros de ouro ao invés de adorarem ao Dono da Igreja, atribuindo as conquistas dadas por Deus por intermédio do seu ministério a outra pessoa ou grupo.
Não foi apenas Moisés que passou por isso, mas a Bíblia está repleta de casos em que os pastores, profetas e missionários de Deus foram rejeitados injustamente pelas ovelhas que estavam confiadas a eles. Há um ensino para mim e para você na narrativa de Êxodo 32.
Líderes rejeitados, feridos, magoados e tolhidos têm sempre diante de si a opção de “abrirem uma nova igreja”, começarem tudo de novo, negando o povo que lhe rejeitou e feriu. É quando o deserto se instala na alma que mais corremos o risco de nos iludir com qualquer miragem, crendo que ela possa ser um oásis de novas oportunidades. Quando não é.
Muitos saem correndo na direção desses oásis para, só depois de muito tempo, perceberem que não chegaram a lugar algum. Mas e Moisés, o que ele fez? Ele teve a coragem de abrir mão dos seus legítimos direitos e interceder pelo povo que lhe havia desprezado! (Êx 32:11-13).
Sim, ele pediu em favor de um povo que só o tratava injustamente. O próprio Deus fizera a proposta para Moisés ser um novo patriarca; ele seria o “pai de muitas nações”; o novo fundamento para uma nova era. Seria muito mais fácil seguir esse caminho… Mas ser líder nunca foi seguir o caminho mais fácil.
Colocar os joelhos no chão, abrir mãos dos próprios justos direitos e pedir em favor daqueles que nos perseguem é o que a Bíblia chama de mansidão. Por isso, a Bíblia diz: “E era o homem Moisés mui manso, mais do que todos os homens que havia sobre a terra” (Nm 12:3; ARC).
Ensino 5: O líder deve sempre interceder pelo bem do povo que Deus lhe concedeu, ainda que esse povo se erga contra ele injustamente.
Leia também o 5º artigo desta série: “José, o líder fujão“.
Publicado originalmente no GospelPrime.

segunda-feira, 20 de março de 2017

José, o líder fujão (5º artigo de 9)

Quando vamos a cursos de liderança, principalmente que abordem liderança eclesiástica, cansamos de ouvir palavras como “vitória”, “não desista”, “enfrente”, “você quer, você consegue”, etc.
É o pensamento positivo, o púlpito psicologizado e as técnicas empresariais de marketing e propaganda que forjam os nossos atuais líderes, que pensam ser “pequenos deuses” diante de uma plateia de pequenos idólatras modernos.
A Bíblia diz que eu e você devemos resistir a Satanás (Tg 4:7), porém, poucos assumem que a melhor maneira de resistir ao diabo é fugindo de suas armadilhas e nos submetendo ao Espírito Santo.
Sinceramente, gostaria de ministrar um curso sobre liderança em que eu pudesse virar de cabeça para baixo todo esse discurso triunfalista no qual mergulhou a maior parte da Igreja Evangélica Brasileira. A principal expressão não seria você pode, mas você falha.
Você indicaria um curso assim ao pastor da sua Igreja? Mas ele nem precisa ir muito longe, basta estudar a Palavra de Deus: “Fugi da prostituição” (1 Co 6.18); “fugi da idolatria” (1 Co 10.14); “saí do meio deles” (2 Co 6.17); “foge destas coisas” (1 Tm 6.11); “Foge também dos desejos da mocidade” (2 Tm 2.22); devemos escapar da corrupção, abandonando a concupiscência que há no mundo (II Pe 1:4); etc.
Neste sentido em que eu abordo este tema, quero dizer, então, que precisamos de líderes mais covardes; líderes que entendam que mais do que fugir do mal, a Bíblia nos orienta a fugir de toda a aparência do mal. Precisamos construir um ministério sobre a transparência e a honra necessárias a um servo que diz apascentar a Seara do Senhor.
Certo pastor ensinou-me que são 3 as barras que derrubam um líder: a barra de ouro, a barra da saia e “São João da Barra”, referindo-se à marca de uma aguardente.
Todas as barras citadas acima revelam a concupiscência da nossa natureza pecadora e, como bem frisou a Dani Marques em seu artigo “Trair e orar é só começar” (que eu indico aqui), são muitas as formas de adultério nas quais os cristãos têm caído.
O exemplo bíblico de um caráter forte na área sexual é o do jovem José na casa de Potifar, quando ele resiste ao convite da mulher de seu senhor (Gn 39). Quem estaria vendo? Quem contaria? Quantos privilégios receberia José se cedesse aos apelos da mulher de seu senhor?
Forjar um caráter como o de José em nossas lideranças, infelizmente, não é uma disciplina de nossos seminários. A lição bíblica é clara: a melhor estratégia, muitas vezes, é sair correndo. Muitas vezes, o ato mais corajoso que devemos ter é o de bater em retirada.
Precisamos de líderes menos super-crentes e muito mais ágeis em fugir. É preciso que o líder seja modelo também em suas próprias fraquezas, ensinando a Igreja e o povo a como lidar com elas.
Eu gostaria que os meus líderes pudessem ser apresentados como José. Gostaria que eles não tivessem vergonha de serem líderes fujões, ensinando-nos a escapar da corrupção sexual, moral e espiritual que tanto destrói a Igreja Brasileira.
Vamos orar a Deus para que Ele nos dê a graça de sermos líderes fujões? Ore comigo.
Ensino 4: O líder é aquele que, submetendo-se ao Espírito Santo, sabe que resistir ao diabo é fugir das suas armadilhas.
Leia também o quarto artigo desta série: “Abraão, um líder de fé“.
Originalmente, postado no GospelPrime.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Abraão, um líder de fé (4º artigo de 9)

Um dos momentos mais difíceis para nós na aldeia foi quando nossa filha passou mal. Não havia barco para retornarmos à cidade e nem havia enfermeiro na aldeia. Foi uma noite apenas, mas foi tempo suficiente para que eu fosse moído por Deus.
Na época, minha filha tinha seis anos de idade. Era nossa primogênita. Teve febre alta e vomitou por várias vezes de madrugada. O que fazer nessas horas? Confiar. Crer que Deus dará algum jeito. O carinho e a preocupação do povo se expressavam na oferta deles em querer trazer o pajé para cuidar dela.
“Nós voltaremos”, disse Abraão aos seus servos. Subiram à montanha indicada por Deus na terra de Moriá, apenas ele e Isaque. A verdade é que ele não pedira a Deus por um filho. Por que, então, Deus estaria querendo toma-lo depois de tantos anos?
O chamado à salvação é individual, mas as bênçãos que procedem disso atingem as pessoas que vivem ao nosso redor. Da mesma forma, a direção dada pelo Espírito Santo ao Campo Missionário (se transcultural ou não) atingirá a família do missionário. O mesmo ocorrerá com qualquer um que almeja o “episcopado” ou um cargo público.
O fato é que absorvemos bem as lutas que enfrentamos, enquanto elas dizem respeito apenas a nós. Todavia, quando nossos filhos sofrem por causa da liderança que assumimos, aí nos é trazido à memória o fato de que somos feitos de um material muito frágil chamado barro.
Tento imaginar os pensamentos, as indagações, as lutas de Abraão naquela madrugada antes da viagem à terra de Moriá, diante do pedido de Deus de que seu filho, o herdeiro das promessas, fosse entregue em sacrifício.
Estar à frente e permanecer fiel a Deus quando não O compreendemos é uma obra que o ES faz em nosso caráter visando a dependência que precisamos ter de Deus.
Nem sempre Deus será claro em seus planos conosco. Nem sempre nossas orações serão prontamente atendidas. Nem sempre Deus responderá da maneira como gostaríamos de ser respondidos.
Líder não é aquele que se torna onisciente dos propósitos de Deus. Não carecemos de líderes que tenham todas as respostas. Não necessitamos de super-crentes. Não devemos correr atrás de projetos messiânicos e personalistas de poder e controle humanos.
Minha mãe foi quem me criou na ausência do meu pai, que falecera quando eu tinha apenas 9 anos. Ela não sabia de todas as coisas, mas ela sempre estava lá ao meu lado. Eu também não sabia o que poderia acontecer com minha filha, mas, quando ela abria os seus olhinhos, ela também sabia que eu estava ali ao lado dela.
Abraão não sabia como, mas sabia Quem! Deus havia feito uma promessa que, de alguma maneira, seria realizada. Abraão abria os olhos inundados de muitas lágrimas e, vendo a areia do deserto e as estrelas do céu, lembrava-se da promessa de uma numerosa descendência feita a ele, já há tantos anos, pelo próprio Deus.
Naquela noite, eu aprendi, junto com Abraão, uma dura lição que, até hoje, reaprendo-a diariamente. Ainda que eu não entenda o porquê das dores planejadas por Deus na minha vida; ainda que o apelo às minhas orações pareça falhar; mesmo que, depois de tudo, a alvorada não venha, eu sei que Deus é poderoso para nos ressuscitar na volta de Jesus!
Então creiamos que, ao final, retornaremos juntos das terras de Moriá.
Ensino 3: O líder é aquele que obedece a Deus, mesmo quando não entende os planos dEle.
Leia também o terceiro artigo desta série: “Quando bons líderes não agradam a Deus“.
Publicado originalmente no GospelPrime.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Quando bons líderes não agradam a Deus (3º artigo de 9)

Há ótimos líderes que unem o grupo, organizam muito bem as tarefas, animam seus liderados, são cativantes e até colocam-se como exemplo daquilo que querem que os outros façam, mas, preste atenção, nem sempre bons líderes agradam a Deus.
Não há dúvida, por exemplo, que havia liderança competente na enorme empreitada para a construção da Torre de Babel. Homens que souberam convencer o grupo a abandonar seu estilo de vida nômade e fixarem-se numa planície da terra de Sinar à revelia das ordens de Deus.
Deus já havia ordenado duas vezes que o gênero humano se espalhasse por toda a terra (Gn 1: 28 e Gn 9:7). A história está repleta de homens que se revelaram ótimos líderes, mas que usaram a liderança para sua autoglorificação: “Vamos! Tornemos nosso nome famoso”!
A Igreja também conheceu líderes que carregaram as ovelhas para trágicas armadilhas. Portanto, um líder ou um grupo de homens personalistas por detrás dos púlpitos e administrações eclesiásticas são a última coisa que poderíamos desejar de nossas lideranças.
Embora a palavra “motivação” nos dê a ideia daquilo que nos fundamenta, remetendo-nos à causa, à origem, à razão do que determina a direção e a intensidade de nossas atitudes, prefiro a palavra “entusiasmo” para tratar especificadamente do líder.
Na etimologia grega de “entusiasmo”, revela-se o radical “Teos”, “o transporte de Deus” para ser mais exato. Assim, uma pessoa entusiasmada é aquela em que Deus age dentro dela para leva-la a determinado fim.
Precisamos de líderes cristãos que sejam entusiasmados nesse sentido da palavra, pois líderes entusiasmados, isto é, carregados por Deus, motivam seus liderados!
Podemos, contudo, ser ótimos líderes, mas estarmos entusiasmados pelo “deus” errado: fama, dinheiro, sexo, poder, etc. Evidentemente, líderes idólatras motivarão erroneamente a Igreja, a família e o Governo.
Eu não quero ser um líder dentro da minha casa que ensine aos filhos o sucesso da autoglorificação. Nossas igrejas já estão cheias de pessoas assim e, por consequência, é esse tipo de líder que temos oferecido à vida pública do país.
Cabe aqui que nos questionemos sinceramente: “Qual é o “Deus” que me entusiasma”? A rebeldia e a autopromoção eram os deuses dos líderes na Torre de Babel. E é muito fácil nos enganarmos e enganarmos a Igreja repetindo chavões como “é para a glória de Deus”. Mas qual Deus?
Ensino 2: O líder que agrada a Deus é aquele que motiva as pessoas para que elas façam o que é certo!
Leia também o segundo artigo desta série: “Jesus é o líder perfeito”.
Publicado originalmente no GospelPrime.

terça-feira, 14 de março de 2017

Jesus é o líder perfeito (2º artigo de 9)

Jesus é a chave que abre todos os tesouros escondidos do conhecimento e da sabedoria que vêm de Deus (Cl 2: 2b-3; NTLH). Assim, se quisermos entender o que Deus ensina sobre o tema da liderança, precisamos partir do Cabeça, do chefe da Igreja, que é o líder perfeito.
“Vai lavar os meus pés, Senhor?”, questiona um Pedro escandalizado com seu Mestre e Senhor (Jo 13: 6b). O escândalo de Pedro é explicado pelo contexto cultural de seu tempo. Apenas os servos, os escravos da casa, lavavam os pés dos visitantes.
Nessa cena é muito bom saber que Jesus não precisa vestir a máscara da falsa modéstia com a qual tantos líderes cristãos hoje escondem suas lutas internas contra a própria vaidade. “Vocês me chamam de “Mestre” e de “Senhor” e têm razão, pois eu sou mesmo”, diz Jesus (v.13).
É comum a autoafirmação de nossos líderes apoiada em títulos acadêmicos e ministeriais. Desde “doutores”, “apóstolos” até “reverendos” e passando também pelos que se apresentam como “servos”, “criados” e “seu humilde conservo de Jesus”, extremos em que a Igreja apenas revela sua falta de maturidade no uso devido de quaisquer títulos.
Enquanto muitos ostentam ou escondem-se atrás dessas qualificações, a verdade é que a metade dos pastores no Brasil nunca leu a Bíblia inteira uma vez sequer e apenas 20% dos demais cristãos a leram inteira uma única vez.
Deveria ser inaceitável termos pastores em nossos púlpitos que não fossem profundos conhecedores da Palavra, assim como é obviamente inaceitável termos à mesa de cirurgia médicos que não dominem tesouras, bisturis e pinças.
Para escândalo da Igreja, aquele que realmente É ajoelha-se diante de nós e nos lava os pés cheios dessa sujeira do mundo. E é preciso que façamos o mesmo, oferecendo-nos como exemplo, segundo o exemplo daquele que é Mestre e Senhor.
A autoridade do líder não se encontra nos títulos que apresenta ou no cargo que ele ocupa, mas na vida que ele nos oferece. Se o líder não lê, não estuda, não busca a Palavra de Deus, não é de se admirar que o povo seja tão ignorante das verdades contidas na Bíblia.
Sei que uma leitura esquerdista monopolizou durante décadas a passagem do lava pés como um exemplo subserviência daquele que tem o poder ao que não tem. Nada mais distante e distorcido do que essa interpretação marxista adotada pela Teologia da Libertação.
O lava pés, em seu contexto evangélico, não é o ato de quem se esquece de sua dignidade e posição, nem uma atitude coagida por lei humana ou pelo Estado, mas, ao contrário, é resultado do amor livre de Jesus pela Igreja.
O líder que precisamos dentro de nossas casas, igrejas e Governo é aquele que dá o exemplo a todos por seu próprio sacrifício pelas ovelhas de Cristo. É urgente que tenhamos líderes que lavem os pés da Igreja com a água santificadora do Evangelho.
Ensino 1: O líder é aquele que serve ao outro, colocando a si mesmo como exemplo para os seus liderados!
Leia também o primeiro artigo desta série: “O líder que o Brasil precisa”.
Postado originalmente no GospelPrime.

segunda-feira, 13 de março de 2017

O líder que o Brasil precisa (1º artigo de 9)

Havia três caciques naquela aldeia: um deles era o dono da aldeia por herança, o outro era quem organizava o povo para a tomada de decisões e para os trabalhos coletivos, e o terceiro fazia a função de “relações internacionais”, pois era quem sentava à mesa com turistas, FUNAI, Universidades, etc.
Nem todas as culturas indígenas possuem a figura do cacique que manda, nem todas possuem um sistema de governo tríplice, nem todas as culturas o cacicado é hereditário. Também é certo que liderança alguma nas aldeias reflete o modelo romântico de equilíbrio, harmonia e paz do “bom selvagem”.
“Qualquer um pode ser cacique na sua aldeia?”, perguntei para indígenas de povos diferentes, mas cujo cacicado é escolhido pelo consenso da comunidade. E duas respostas, que foram comuns entre eles, chamaram-me a atenção: ele deve ser honesto e cuidar bem da própria família.
Aqueles critérios, usados para a escolha do líder em suas aldeias, são bíblicos e estão lá naquela lista da carta de Paulo a Timóteo como normas para a distinção entre aqueles que devem liderar as nossas igrejas (I Tm 3). Todavia, há muito que as igrejas já não levam em conta essa lista para a escolha de suas próprias lideranças.
São critérios que, como eu mesmo vi, alguns grupos indígenas consideram, ainda que essas etnias não sejam cristãs, porque são normas universais. Como colocaríamos na liderança da aldeia, da Igreja e do país pessoas que tivessem um mau testemunho dos de fora e que fossem maus governantes de suas próprias famílias?
Mas, infelizmente, é isso o que temos feito. Temos ignorado que há regras, inclusive regras de caráter, que nossas lideranças do país, cristãs ou não, deveriam ter para que, só então, as elegêssemos.
Por isso, para além daquela lista mínima da carta de Paulo a Timóteo, quero compartilhar outros sete ensinos simples e bíblicos que deveríamos ter como critérios para a escolha da liderança do nosso país.
Na verdade, são sete ensinos que nos ajudarão não apenas a escolher nossas lideranças, mas darão uma direção bíblica para ajudar a reconhecer os verdadeiros líderes no meio de tantos lobos vorazes disfarçados de cordeiros.
Esses critérios também nos ajudarão, desde agora, a preparar nossos filhos para que eles se tornem os líderes que tanto precisamos, seja na família, na Igreja e no Estado. 
Originalmente publicado no GospelPrime.

sábado, 4 de março de 2017

Quase a mesma coisa - traduzindo os eventos daqueles dias...

Por que você escreveu isto? - perguntaram-me. E esta foi a pergunta mais ouvida por mim naqueles dias. A pressão foi enorme. Diria mesmo que foi um imenso rolo compressor passado por cima de mim. Imaginaria eu que estaria colocando minha mão num vespeiro? Quem poderia supor que eu estava prestes a me ver no olho do furacão, num jogo de intrigas entre gregos e troianos! O que faria, então?

Terminei por fazer aquilo que eu faço de melhor: mantive a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo... Quando dei por mim, até o jornalista do SBT havia me ligado em casa. “Fábio, é o jornalista do SBT perguntando se você daria uma entrevista explicando a sua versão dos fatos. Ele quer saber se você pode falar com ele... você vai?”, disse-me assustada a Lu. Gelei! Aquela ligação deu-me a exata noção da extensão do problema que acontecera diante do que eu havia escrito.

“Mas você escreveu alguma mentira? Você inventou tudo aquilo?”, perguntaram-me. “Claro que não!” Expliquei-me: “Eu estava dando voz a um outro. Alguém pensava aquilo e eu queria fazer ressoar o que aquele alguém pensava para que pudéssemos entender o que se passava na cabeça dele e na de tantos outros. Só isso!”, insistia. Entretanto, tudo foi em vão. Queriam era a minha cabeça e, pelo visto, queriam que eu mesmo a entregasse numa bandeja de prata para não sujarem as próprias mãos.

Contando assim, até parece que fiquei isolado. Muitos que haviam me acompanhado, apoiaram-me naqueles dias negros e disseram que, se preciso fosse, escreveriam em meu favor. Porém, da maneira que tudo estava sendo montado, se eu permitisse que eles fizessem algo assim em minha defesa, todos cairíamos. E eu não queria levar ninguém comigo. 

O que mais me surpreendia no desenrolar dos eventos é que eram os da minha própria "casa" que se levantavam contra mim. Eram aqueles que, outrora, eu os defendera, advogara suas ideias e a quem eu havia entregue minha vida por aquela causa...

Atacaram-me, por quê? Porque quis abrir um diálogo entre opostos, dar oportunidade para que entendêssemos problemas que estavam sendo expostos e que precisavam ganhar uma nova perspectiva para discussão. E, inesperadamente, abriu-se na minha direção a boca escancarada do totalitarismo: uma besta-fera que não discute ideias e nem se importa com argumentos, apenas acua os mais fracos e devora-lhes o fígado.

Foi isso o que fizeram comigo. Levaram-me aos tribunais e tive que chorar diante deles, derramar minhas lágrimas de sangue para que outros não fossem atacados junto comigo. Protegi amigos e padeci em silêncio, assumindo a responsabilidade por tudo o que eu havia escrito. Assinei papéis, ouvi ofensas e palavras de incompreensão. Em determinado momento, meu algoz, no tribunal daquele circo, disse-me: “O que eles querem é apenas que eu te ferre. Lá em cima, eles me disseram: dá um susto nele, esmaga o rapaz para que ele nunca mais se atreva a dizer de novo o que pensa e nem que fique dando voz para índio”!

Foi mais de um mês de idas e vindas ao tribunal, explicando-me, ouvindo inverdades, sendo coagido e sendo assustado, até, finalmente, ver-me vencido pelo esgotamento de minhas forças. “Mas por que você escreveu sobre isso?”, insistiam. “Eu estava numa caminhonete. Foi ali que eu o conheci e foi ele, naquela viagem de mais de três horas, quem me contou tudo. Aquele indígena foi me contando sobre a aliança entre o meu partido e os fazendeiros da Região e como isso estava prejudicando suas terras. E, assim, eu escrevi tudo o que ele havia me contado...”, expliquei. Na época, pareceu absurdo, mas, depois, tudo veio à tona: o Governador do Estado, o maior latifundiário do país, realmente era aliançado com o Presidente da República!

Mas quem eu era? Só um professorzinho de escola pública... E o partido ao qual eu pertencia, denunciado por mim, virou suas presas e garras em minha direção e eles não descansariam enquanto não me desacreditassem diante de todos...

Hoje (29/11/12), toda essa história ocorrida há mais de cinco anos (refiro-me à conversa com o indígena), retornou-me à memória, porque eu achei dentro de um livro guardado aqui em casa o “mandato de notificação” que me deram naquela época e que iniciou todo meu suplício naquele inferno. Nunca mais pegara esse livro para ler e, hoje, logo hoje, resolvi retirá-lo da prateleira para o reler. Para minha surpresa, lá estava, logo na primeira página, aquela folha dobrada ao meio e assinada pelos meus algozes da época. Vê-la, depois de tanto tempo, trouxe à tona toda esta história que agora conto. O nome do livro em que encontrei a folha? “Quase a mesma coisa”, do Umberto Eco. Um livro apaixonante sobre tradução...

Publicado originalmente em 30 de novembro de 2012.

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